Edu Dracena é exemplo único de jogador que ao mudar de time não muda o comportamento

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo
25 Junho 2017 | 03h00

Zagueiros não brincam em serviço. É possível notar claramente quando um atleta joga na zaga. Ele é diferente, até no físico. Não por serem grandes e encorpados, mas por serem sérios. Parecem transmitir em seus rostos a noção de que para eles não existem jogadas fáceis. Atrás deles está o goleiro e estão lá para protegê-lo. Sua missão é não deixar moleques irrequietos, rápidos, dribladores e imprevisíveis atrapalhar a vida do seu goleiro. São uma espécie de guarda pretoriana de antigos imperadores: ultrapassados eles, o que há é o inferno. São um a espécie à parte no futebol.

De Djalma Dias, passando por Roberto Dias, Luiz Pereira, Oscar, Aldair, Ricardos Rocha e Gomes, Mozer, até Gamarra, Antonio Carlos, Mauro Galvão e o atual Edu Dracena. Através desse grande jogador que ainda está jogando, e bem, é possível entrever todos os outros que o precederam.

É ele um exemplar único ainda em campo de um tipo de jogador que aos poucos vai deixando a arena para outras espécies novas. Começa por ter uma longa carreira sempre igual em si mesma. Não é possível encontrar ao longo do tempo desse já veterano jogador mudanças de comportamento de uma equipe para outra. É sempre o mesmo. Sério, disciplinado, discreto sem ser tímido, vibrante sem se fingir de torcedor do seu clube do momento. Apenas faz sua obrigação.

Os torcedores, com seu instinto infalível, reconhecem isso. Há jogadores que deixaram o Santos e que quando voltam a pisar o gramado da Vila são vaiados o tempo todo por torcedores vingativos. Não Edu Dracena. Deixou o Santos para jogar no Corinthians e no primeiro jogo na Vila foi recebido sem nenhum desgaste. Saiu do Corinthians e foi para o Palmeiras, coisa quase imperdoável. Outros fizeram essa viagem, até bem recentemente, e estão causando polêmicas e discussões. Edu joga na arena do Corinthians vestindo a camisa do Palmeiras com o respeito dos torcedores mais exaltados.

É que sua atitude em campo se completa com sua atitude fora dele. Edu Dracena jamais proferiu qualquer palavra contra os clubes pelos quais jogou, jamais alimentou controvérsias, deu declarações dessas que vão acabar nas redes sociais. Suas entrevistas são quase sempre iguais, isto é, uma recusa em falar sobre clubes e companheiros antigos e atuais. Não foge nem se recusa a atender jornalistas, mas não esperem dele revelações bombásticas ou mesmo casos engraçados, já que fazer rir é a obsessão atual até no futebol.

Ele mesmo disse, numa entrevista, que é inútil pedir-lhe que relate fatos pitorescos e “inusitados” da carreira. Ele não se lembra de nenhum. Quando chegou no Palmeiras, muita gente torceu o nariz. Sua idade era lembrada a todo instante. De fato, com a chegada de outros jogadores foi para a reserva, coisa quase desconhecida em sua carreira. Não se rebelou, não disse uma palavra e foi entrando aqui e ali quando necessário, jogando seu jogo. E de repente, sem que ninguém notasse, com a discrição habitual, eis Edu Dracena de novo titular. No jogo do título, contra a Chapecoense, ele estava lá erguendo a taça.

Levantar taças não é nenhuma novidade para esse jogador sempre levemente fora de foco. Foi campeão brasileiro várias vezes por Cruzeiro, Corinthians e Palmeiras. Foi várias vezes campeão paulista. Pelo Santos foi campeão da ambicionada Libertadores. Até no relativamente pouco tempo que jogou na Turquia foi campeão. Não jogou no primeiro escalão da Europa é verdade, mas eu o considero um jogador europeu perdido entre nós. Jogadores verdadeiramente brasileiros são só considerados os do meio campo para frente, os artistas, os malabaristas, os mágicos. Os zagueiros, porém, não se incomodam com isso. Não estão ali para brincadeiras.